Comunicações com o mundo invisível
A existência, a sobrevivência e a individualidade da alma sendo admitidas, o
Espiritismo se reduz a uma só questão principal:
as comunicações entre as almas e os vivos são possíveis?
Essa possibilidade é um resultado da experiência. O fato de o intercâmbio entre
o mundo visível e o mundo invisível uma vez estabelecido, a natureza, a causa e
o modo desses intercâmbios sendo conhecidos, é um novo campo aberto à observação
e a chave de uma multidão de problemas; é, ao mesmo tempo, um poderoso elemento
moralizador para acabar com a dúvida sobre o futuro.
O que lança no pensamento de muitas pessoas a dúvida sobre a possibilidade das
comunicações de além-túmulo, é a idéia falsa que se faz do estado da alma depois
da morte. Se a figura, geralmente, como um sopro, uma fumaça, alguma coisa vaga,
apenas compreendida pelo pensamento, que se evapora e vai para não se sabe onde,
mas tão longe que mal se compreende que ela possa voltar sobre a Terra. Se a
considerarmos, ao contrário, na sua união com um corpo fluídico, semimaterial,
com o qual ela forma um ser concreto e individual, seus intercâmbios com os
vivos não têm nada de incompatível com a razão.
O mundo visível vivendo no meio do mundo invisível, com o qual está em contato
perpétuo, disso resulta que eles reagem incessantemente um sobre o outro; que
desde que há homens, há Espíritos, e que se estes últimos têm o poder de se
manifestar, devem tê-lo feito em todas as épocas e entre todos os povos.
Entretanto, nestes últimos tempos, as manifestações dos Espíritos tomaram grande
desenvolvimento e adquiriram um maior caráter de autenticidade, porque estava
nos objetivos da Providência colocar termo ao flagelo da incredulidade e do
materialismo mediante provas evidentes, permitindo àqueles que deixaram a Terra
virem atestar sua existência e nos revelar sua situação feliz ou infeliz.
Os intercâmbios entre o mundo visível e o mundo invisível podem ser ocultos ou
patentes, espontâneos ou provocados. Os Espíritos agem sobre os homens, de
maneira oculta, pelos pensamentos que lhes sugerem e por certas influências; de
um modo patente, por efeitos apreciáveis pelos sentidos. As manifestações
espontâneas ocorrem inopinadamente e de improviso; elas se produzem,
freqüentemente, nas pessoas desprovidas de idéias espíritas e que, por isso
mesmo, não podendo compreendê-las, as atribuem a causas sobrenaturais. Aquelas
que são provocadas ocorrem pela intervenção de certas pessoas dotadas, para esse
efeito, de faculdades especiais e que se designam pelo nome de
médiuns.
Os Espíritos podem se manifestar de muitas maneiras diferentes: pela visão, pela
audição, pelo tato, pelos ruídos, o movimento dos corpos, a escrita, o desenho,
a música, etc.
Os Espíritos se manifestam algumas vezes espontaneamente por ruídos e pancadas;
é, freqüentemente, para eles um meio de atestar sua presença e chamar a atenção
sobre si, absolutamente como quando uma pessoa bate para advertir que há alguém.
Há os que não se limitam a ruídos moderados, mas que vão até à produção de um
barulho parecido com o da louça que se quebra, de portas que se abrem e se
fecham, ou de móveis que se derrubam; alguns causam mesmo uma perturbação real e
verdadeiros estragos. (Revista
Espírita,
1858: O Espírito batedor de Bergzabern, págs. 125, 153, 184 -
idem:
O Espírito batedor de Dibbelsdorf, pág. 219 .
idem
1860: O padeiro de Dieppe, pág. 76 -
idem:
O fabricante de Saint Pétersburg, pág. 115 -
idem:
O farrapeiro da rua Noyers, pág. 236).
O perispírito, ainda que invisível para nós no estado normal, não é por isso
menos matéria etérea. O Espírito pode, em certos casos, fazê-lo experimentar uma
espécie de modificação molecular que o torna visível e mesmo tangível; é assim
que se produzem as aparições. Esse fenômeno não é mais extraordinário que o do
vapor, que é invisível quando está muito rarefeito e que se torna visível quando
está condensado. Os Espíritos que se tornam visíveis se apresentam, quase
sempre, sob a aparência que tiveram em sua vida e que pode fazê-los reconhecer.
A visão permanente e geral dos Espíritos é muito rara, mas as aparições isoladas
são bastante freqüentes, sobretudo no momento da morte; o Espírito liberto
parece apressar-se em rever seus parentes e amigos, como para os advertir que
acaba de deixar a Terra e lhes dizer que vive sempre. Que cada um medite suas
lembranças e se verá quantos fatos autênticos desse gênero, dos quais não se
apercebeu, ocorreram não só à noite, durante o sono, mas em plena luz do dia, no
estado de vigília mais completo. Outrora, consideravam-se esses fatos como
sobrenaturais e maravilhosos, e se os atribuía à magia e à feitiçaria; hoje os
incrédulos os atribuem à imaginação; mas, desde que a ciência espírita deles deu
a chave, sabe-se como eles se produzem e que não saem da ordem dos fenômenos
naturais.
Era com a ajuda do seu perispírito que o Espírito agia sobre seu corpo físico; é
ainda com esse mesmo fluido que ele se manifesta agindo sobre a matéria inerte;
que ele produz os ruídos, os movimentos de mesas e outros objetos, que ele
eleva, derruba ou transporta. Esse fenômeno nada tem de surpreendente se se
considerar que, entre nós, os mais possantes motores usam os fluidos, os mais
rarefeitos e mesmo imponderáveis, como o ar, o vapor e a eletricidade.
Igualmente, é com a ajuda do seu perispírito que o Espírito faz o médium
escrever, falar ou desenhar. Não tendo mais corpo tangível para agir
ostensivamente, quando quer se manifestar, ele se serve do corpo do médium do
qual empresta os órgãos, com os quais age como se fora com seu próprio corpo, e
isso pelo eflúvio fluídico que derrama sobre ele.
No fenômeno designado sob o nome de
mesas moventes
ou
mesas falantes
é pelo mesmo meio que o Espírito age sobre a mesa, seja para fazer mover sem
significação determinada, seja para dar pancadas inteligentes indicando as
letras do alfabeto para formar palavras e frases, fenômeno designado sob o nome
de
tiptologia.
A mesa, aqui, não é senão um instrumento do qual ele se serve, como o faz com o
lápis para escrever; ele lhe dá uma vitalidade momentânea pelo fluido que a
penetra, mas
não se identifica com ela.
As pessoas que, em sua emoção, vendo se manifestar um ser que lhes é caro,
abraçam a mesa, fazem um ato ridículo, porque é absolutamente como se abraçassem
um bastão do qual um amigo se serve para dar pancadas. Ocorre o mesmo com
aqueles que dirigem a palavra à mesa, como se o Espírito estivesse encerrado na
madeira, ou como se a madeira se tivesse tornado Espírito. Quando as
comunicações ocorrem por esse meio, é preciso representar o Espírito, não na
mesa, mas ao seu lado,
tal como era vivo,
e tal como seria visto se, nesse momento, ele pudesse se tornar visível. A mesma
coisa ocorre nas comunicações escritas; ver-se-ia o Espírito ao lado do médium,
dirigindo sua mão, ou lhe transmitindo seu pensamento por uma corrente fluídica.
Quando a mesa se destaca do solo e flutua no espaço sem ponto de apoio, o
Espírito não a ergue com o braço, mas a envolve e a penetra com uma espécie de
atmosfera fluídica que neutraliza os efeitos da gravitação, como faz o ar nos
balões e nos papagaios de papel. O fluido do qual ela está penetrada lhe dá,
momentaneamente, uma leveza específica maior. Quando ela está colada ao chão,
está em caso análogo ao da campânula pneumática sob a qual se faz o vácuo. Estas
não são comparações senão para mostrar a analogia dos efeitos, mas não a
semelhança absoluta das causas. Quando a mesa persegue alguém, não é o Espírito
que corre, porque ele pode ficar tranqüilamente no mesmo lugar, mas que a
impulsiona por uma corrente fluídica, com a ajuda da qual a faz mover-se à sua
vontade. Quando as pancadas se fazem ouvir na mesa ou outro lugar, o Espírito
não bate nem com a mão nem com um objeto qualquer; ele dirige sobre o ponto de
onde parte o barulho, um jato de fluido que produz o efeito de um choque
elétrico. Ele modifica o barulho, como se podem modificar os sons produzidos
pelo ar. Compreende-se, segundo isso, que não é mais difícil ao Espírito
erguer uma pessoa
do que erguer uma mesa, transportar um objeto de um lugar para outro ou de o
lançar em qualquer parte; esses fenômenos se produzem em razão da mesma lei.
Pode-se ver, por essas poucas explicações, que as manifestações espíritas, de
qualquer natureza que sejam, nada têm de sobrenatural ou de maravilhoso. São
fenômenos que se produzem em virtude da lei que rege o intercâmbio do mundo
visível com o mundo invisível, lei tão natural como a da eletricidade, da
gravitação, etc. O Espiritismo é a ciência que nos faz conhecer essa lei, como a
mecânica nos faz conhecer a lei do movimento, a ótica a da luz. As manifestações
espíritas, estando na Natureza, produziram-se em todas as épocas; a lei que as
rege, uma vez conhecida, nos explica uma série de problemas considerados
insolúveis; é a chave de uma multidão de fenômenos explorados e ampliados pela
superstição.
O maravilhoso, uma vez afastado, esses fenômenos nada mais têm que repugne à
razão, porque eles vêm se colocar ao lado de outros fenômenos naturais. Nos
tempos de ignorância, todos os efeitos dos quais não se conheciam as causas eram
reputados como sobrenaturais. As descobertas científicas, sucessivamente,
restringiram o círculo do maravilhoso; o conhecimento desta nova lei o reduziu a
nada. Aqueles, pois, que acusam o Espiritismo de ressuscitar o maravilhoso
provam, com isso, que falam de uma coisa que não conhecem.
As manifestações dos Espíritos são de duas naturezas:
os efeitos físicos e as manifestações inteligentes.
Os primeiros são os fenômenos materiais e ostensivos, tais como os movimentos,
os ruídos, os transportes de objetos, etc.; as outras consistem na permuta
regular de pensamentos com a ajuda de sinais, da palavra e, principalmente, da
escrita.
As comunicações que se recebem dos Espíritos podem ser boas ou más, justas ou
falsas, profundas ou superficiais, segundo a natureza dos Espíritos que se
manifestem. Aqueles que provam sabedoria e saber são Espíritos que progrediram;
aqueles que provam ignorância e más qualidades são Espíritos ainda atrasados,
que progredirão com o tempo. Os Espíritos não podem responder senão sobre o que
sabem, segundo seu adiantamento, e, além disso, sobre o que lhes é permitido
dizer, porque há coisas que não devem revelar, visto que não é dado, ainda, ao
homem tudo conhecer.
Da diversidade nas qualidades e aptidões dos Espíritos resulta que não basta se
dirigir a um Espírito qualquer para ter uma resposta justa a toda questão,
porque, sobre muitas coisas, ele não pode dar senão sua opinião pessoal, que
pode ser justa ou falsa. Se ele é sábio, reconhecerá sua ignorância sobre o que
não sabe; se é leviano ou mentiroso, responderá sobre tudo sem se preocupar com
a verdade; se é orgulhoso, dará sua idéia como uma verdade absoluta. Foi por
isso que São João Evangelista disse:
não creiais em todo Espírito, mas examinai se os Espíritos são de Deus.
A experiência prova a sabedoria desse conselho. Haveria, pois, imprudência e
leviandade em aceitar sem controle tudo o que vem dos Espíritos. Por isso, é
essencial conhecer a natureza daqueles com os quais se tem relação. (O
Livro dos Médiuns,
nº 267).
Reconhece-se a qualidade dos Espíritos pela sua linguagem; a dos Espíritos
verdadeiramente bons e superiores é sempre digna, nobre, lógica, isenta de
contradições; nela transparecem a sabedoria, a benevolência, a modéstia e a
moral mais pura; ela é concisa e sem palavras inúteis. Nos Espíritos inferiores,
ignorantes ou orgulhosos, o vazio das idéias é quase sempre compensado pela
abundância de palavras. Todo pensamento evidentemente falso, toda máxima
contrária à moral sadia, todo conselho ridículo, toda expressão grosseira,
trivial ou simplesmente frívola, enfim toda marca de malevolência, presunção ou
arrogância, são sinais incontestáveis de inferioridade num Espírito.
Os Espíritos inferiores são mais ou menos ignorantes; seu horizonte moral é
limitado, sua perspicácia restrita. Eles não têm das coisas senão uma idéia
freqüentemente falsa e incompleta e estão, por outro lado, ainda sob a
influência dos preconceitos terrestres que tomam, algumas vezes, por verdades;
por isso, eles são incapazes de resolverem certas questões. Eles podem nos
induzir ao erro, voluntária ou involuntariamente, sobre o que eles próprios não
compreendem.
Os Espíritos inferiores não são, por isso, todos essencialmente maus; há os que
não são senão ignorantes e levianos; há os gracejadores, os espirituosos, os
divertidos e que sabem manejar o gracejo fino e mordaz. Ao lado disso,
encontram-se no mundo dos Espíritos, como sobre a Terra, todos os gêneros de
perversidades e todos os graus de superioridade intelectual e moral.
Os Espíritos superiores não se ocupam senão com manifestações inteligentes
objetivando nossa instrução; as manifestações físicas ou puramente materiais,
estão mais especialmente nas atribuições dos Espíritos inferiores, vulgarmente
designados sob o nome de
Espíritos batedores,
como, entre nós, os torneios de força cabem aos saltimbancos e não aos sábios.
As comunicações com os Espíritos devem sempre ser feitas com calma e
recolhimento; não se deve jamais perder de vista que os Espíritos são as almas
dos homens e que seria inconveniente deles fazer um jogo e um objeto de
divertimento. Se se deve respeito aos despojos mortais, deve-se muito mais ainda
ao Espírito. As reuniões frívolas e levianas faltam, pois, a um dever, e aqueles
que delas fazem parte deveriam meditar que, de um momento para o outro, podem
entrar no mundo dos Espíritos, e não veriam com prazer que os tratassem com tão
pouca deferência.
Um outro ponto igualmente essencial a considerar é que os Espíritos são livres;
eles se comunicam quando querem, com quem lhes convém e também quando podem,
porque têm suas ocupações. Eles não estão às ordens e ao capricho de quem quer
que seja, e não é dado a ninguém fazê-los vir contra a sua vontade, nem dizerem
o que querem calar; de sorte que ninguém pode afirmar que um Espírito qualquer
virá ao seu chamado em um momento determinado, ou responderá a tal ou tal
questão. Dizer o contrário é provar ignorância absoluta dos mais elementares
princípios do Espiritismo;
só o charlatanismo tem fontes infalíveis.
Os Espíritos são atraídos pela simpatia, semelhança de gostos e de caráter e
pela intenção dos que desejam sua presença. Os Espíritos superiores não vão mais
a uma reunião fútil do que um sábio da Terra não iria em uma reunião de jovens
estouvados. O simples bom senso diz que não poderia ser de outra forma. Se eles
vão, algumas vezes, é para dar um conselho salutar, combater os vícios, procurar
conduzir ao bom caminho; se não são escutados, retiram-se. Seria ter uma idéia
completamente falsa, crer-se que os Espíritos sérios pudessem se comprazer em
responder a futilidades, a questões ociosas que não provam, ou atribuem, nem
respeito por eles nem desejo real de instrução, e ainda menos que possam vir dar
espetáculo para divertir curiosos. Se não o fizeram durante sua vida, não o
podem fazer depois da sua morte.
A frivolidade das reuniões tem como resultado atrair os Espíritos levianos que
não procuram senão as ocasiões de enganar e mistificar. Pela mesma razão de que
os homens graves e sérios não vão em assembléias inconseqüentes, os Espíritos
sérios não vão senão em reuniões sérias, cujo objetivo seja a instrução, e não a
curiosidade; é nas reuniões desse gênero que os Espíritos superiores gostam de
dar seus ensinamentos.
Do que precede, resulta que toda reunião espírita, para ser proveitosa, deve,
como primeira condição, ser séria e reservada, que tudo deve aí se passar
respeitosamente, religiosamente, e com dignidade, se se quer obter o concurso
habitual dos bons Espíritos. É preciso não esquecer que se esses mesmos
Espíritos nelas estivessem presentes em vida, ter-se-ia por eles a consideração
a que têm ainda mais direito depois de sua morte.
Em vão alega-se a utilidade de certas experiências curiosas, frívolas e
recreativas para convencer os incrédulos; chega-se a um resultado todo oposto. O
incrédulo já levado a zombar das crenças mais sagradas, não pode ver uma coisa
séria onde se faz brincadeira; ele não pode ser levado a respeitar o que não lhe
é apresentado de uma maneira respeitável; por isso, das reuniões fúteis e
levianas, daquelas nas quais não há nem ordem, nem gravidade e nem recolhimento,
ele carrega sempre uma impressão má. O que pode, sobretudo, convencê-lo é a
prova da presença de seres cuja memória lhe é cara; é diante de suas palavras,
graves e solenes, diante das revelações íntimas, que ele se comove e empalidece.
Mas porque tem mais respeito, veneração e consideração pela pessoa cuja alma se
lhe apresenta, fica chocado, escandalizado, em vê-la vir em uma assembléia de
pouco respeito, no meio de mesas que dançam e da pantomima de Espíritos
levianos. Incrédulo que é, sua consciência repele essa aliança do sério e do
frívolo, do religioso e do profano, e é por isso que taxa tudo isso de
hipocrisia, e sai, freqüentemente, menos convencido do que quando entrou. As
reuniões dessa natureza fazem sempre mais mal que bem, porque afastam da
doutrina mais pessoas do que a ela conduzem, sem contar que se expõem à crítica
dos detratores que nelas encontram motivos fundados de zombaria.
É erradamente que se faz um jogo das manifestações físicas; se elas não têm mais
a importância do ensinamento filosófico, têm a sua utilidade, do ponto de vista
do fenômeno, porque são o alfabeto da ciência, da qual deram a chave. Embora
menos necessárias hoje, elas ajudam ainda a convencer certas pessoas. Elas,
porém, não excluem de nenhum modo a ordem e a decência das reuniões onde se as
experimenta; se fossem sempre praticadas de maneira conveniente, convenceriam
mais facilmente e produziriam, sob todos os aspectos, melhores resultados.
Certas pessoas fazem uma idéia muito falsa das evocações; há os que crêem que
elas consistem em fazer voltar os mortos com a aparência lúgubre da sepultura. O
pouco que dissemos a esse respeito deve dissipar esse erro. Não é senão nos
romances, nos contos fantásticos de almas do outro mundo e no teatro que se vêem
os mortos descarnados saírem de suas sepulturas, vestidos ridiculamente de
mortalha e fazendo chocalhar seus ossos. O Espiritismo, que jamais fez milagres,
não fez mais este que outros, e jamais fez reviver um corpo morto; quando o
corpo está na cova, aí está definitivamente. Mas o ser espiritual, fluídico,
inteligente, não foi aí encerrado com seu envoltório grosseiro, do qual se
separou no momento da morte, e uma vez operada a separação, nada tem em comum
com ele.
A crítica malévola se inclina a representar as comunicações espíritas como
cercadas de práticas ridículas e supersticiosas da magia e da necromancia. Se
aqueles que falam do Espiritismo, sem o conhecer, se tivessem se dado ao
trabalho de estudar aquilo de que querem falar, se poupariam de gastos da
imaginação ou de alegações que não servem senão para provarem sua ignorância e
sua má vontade. Para a edificação de pessoas estranhas à ciência espírita, nós
diremos que não há, para se comunicar com os Espíritos, nem dias, nem horas, nem
lugar mais propícios uns que os outros; que não é preciso para os evocar, nem
fórmulas, nem palavras sacramentais ou cabalísticas; que não há necessidade de
nenhuma preparação, de nenhuma iniciação; que o emprego de todo sinal ou objeto
material, seja para os atrair, seja para os repelir, não tem efeito, e que o
pensamento basta; enfim, que os médiuns recebem suas comunicações tão
simplesmente e tão naturalmente, como se fossem ditadas por uma pessoa viva, sem
saírem do estado normal. Só o charlatanismo poderia tomar maneiras excêntricas e
adicionar acessórios ridículos. A evocação dos Espíritos se faz em nome de Deus,
com respeito e recolhimento; é a única coisa recomendada às pessoas sérias que
querem ter intercâmbio como os Espíritos sérios.
Fonte: “O Que é Espiritismo” de Allan Kardec